Literário

Espelho Cabisbaixo

postado em 2 de out de 2014 12:53 por Andre Martins   [ 6 de out de 2014 09:42 atualizado‎(s)‎ ]

André Luís Batista Martins 1



[ O espelho d´água refletiu hoje o céu. Cabisbaixo, vejo a

imensidão

que invade e pousa além,

 muito além do que pude ver ] Você estava lá e a onda se  espalhou...





 




CASA TORTA

postado em 2 de out de 2014 12:49 por Andre Martins   [ 6 de out de 2014 05:44 atualizado‎(s)‎ ]

Marta Fontoura Queiroz Cantuário1

U

m dia, viajando pelas terras Sem-fim, conheci a casa do vento. É uma casa torta, que de tanto vento, não tem mais porta.

 A casa aparenta ser feita de massa, parece molenga, que até faz graça.

Quando o ventinho chega em sua casa, voa panela, voa prato, voa garfo e colher. Às vezes voam paredes, o telhado e o que mais tiver.

Coitada da casa torta!


O pedreiro, Sr. Retoque, vive refazendo as paredes, colocando o telhado. Mas, quando chega o Sr. Ventão... Ai, ai, ai, que confusão!

O ventinho-filhote é muito agradável, por onde ele passa nos dias de calor, todos dizem: “que ventinho gostoso!”. E todos acham bom.

O ventinho soprador fica com cara sapeca, pois adora elogios. Gosta de viajar e anda por todo o mundo. Em suas viagens aprendeu a falar português, francês, inglês e até mineirês.

Adora fazer travessuras, como arrancar perucas e bagunçar penteados. Quando isto acontece, ele dá umas risadinhas sopradinhas, que mais parecem assobios do curió.

O vento é amigo das pessoas e quase todos gostam de sua presença. Ele sopra as roupas do varal e balança as folhas das árvores, que aproveitam para dançar. Faz tremer a água da represa e desvia a água da bica, fazendo-a respingar na saia da Dona Ricota. Como ele é travesso!

O ventinho é assim: se ele bate na porta e não o deixam entrar, ele procura as frestas das portas e janelas. Estica o corpo, fica bem fininho, vai entrando de mansinho.

Já dentro de casa, começa a girar em volta dos pés, que ficam parecendo picolés. Deixa também o nariz e a orelha gelados, e a garganta fica coçando, pedindo um chocolate.

E quando alguém toma algo quentinho, cria-se uma barreira de proteção contra o ventinho. Então, o ventinho emburra e vai pra um cantinho, esperando alguém passar e ele cutucar com o seu soprinho gelado.

 

Em suas muitas travessuras, já arrancou o gorro do saci e despenteou os cabelos da dona Belinha, ajeitados para a festa. Já desfolhou o jornal do vovô e trouxe de volta todas as folhas que dona Lucinda varreu.

O ventinho gosta de soprar as folhinhas verdes das árvores para que elas caiam e vive varrendo as folhas de outono para que elas façam um barulhinho chacoalhado. Também adora levar florzinhas ao ar, para deixar ainda mais felizes as meninas risonhas.

Ah, mas no frio, o ventinho deveria se chamar geladinho. Nessa época, todos fecham a porta para ele não entrar. Mas, como é travesso, não liga. Sente-se temido e fica todo vaidoso.

No fundo, ele sabe que é só por um tempo. Um dia ele voltará a refrescar a muitos do calor e fazer bailar os pingos de chuva nas tardes de primavera.

Depois de muito correr, de tanto andar, o ventinho volta para a casa torta. Que é torta, mas é sua e por isso, é gostosa e aconchegante como um abraço.

Ventinho entra em casa, dá um beijo ventosinho na mamãe e diz um “boa noite” sopradinho para o papai Ventão.

Então, voa prato e panela e até o cobertor, mas ventinho não liga, está na sua casinha torta, tão ventilada e tão gostosa.

Come uma sopa de nuvens fofinhas, escova os dentes e vai dormir em sua cama retorcida.

Afunda a cabeça no travesseiro de algodão e sonha até não poder mais.

Nos sonhos, relembra os lugares por onde andou, as terras que visitou, as pessoas que conheceu, as travessuras que fez.

E seu sonho vai girando, como um redemoinho travesso. E vai cantando e soprando, um soprinho que mais parece o assobio de uma linda canção.

E a casinha torta fica assim: com cara de contente!


1-2 of 2