CULTURAL


Brazuca, uma experiência em Portugal...

postado em 19 de dez de 2014 08:31 por Andre Martins   [ 20 de dez de 2014 09:39 atualizado‎(s)‎ ]

Wesley Diniz Ferreira 
Professor de Arte e formador no Cemepe

Papeio com este papiro por não ter com quem papear... Setenta dias dividido, multiplica-se a agonia, longe de ti terra querida, cá estou do outro lado do Oceano. Águas que me separam de casa, agoniza meu peito, tira-me o sono, lacrimeja-me as pálpebras...

            Neste momento, estou a completar vinte horas seguidas, aguardando pacientemente, na longa fila o meu visto de permanência em Portugal. O corpo não mais que o coração está dolorido, a cabeça mantém-se assim como a fé, sustentada pela esperança do regresso. Não posso fraquejar!...

            Num recinto que abrange uma área não mais  que 150 metros quadrados, há pessoas de praticamente todos os continentes, procuro então aguçar os meus sentidos... exceto o do olfato que pela burocracia do Serviço de Estrangeiros excita o seu público a exalar uma fragrância nada agradável.

 Aqui sigo no comboio (metrô de superfície), tudo passa e eu aqui paro, penso, o que será que se querer não se sabe o quê, não sei!... Vejo pelo vidro que reflete o emaranhado de prédios e nelas moradias. São 8 horas da manhã, meados de Abril de 2001, faz um frio leve e um sol radiante, estamos na primavera e as flores não decepcionaram, pena que nem tudo são flores. Há quatro meses aqui cheguei, de lá para cá pude perceber o que ainda as vendas da ilusão não me permitiam ver.

            Ainda não cheguei ao meu destino, durante o percurso são duas horas de reflexão. Os pensamentos parecem saltar da mente para a ponta da esferográfica. 13º C é o que mostra no painel do Comboio. Neste sábado apesar do frio o sol mostra-se convidativo para um passeio, mas pelo contrário, terei muito trabalho graças a Deus. Aqui ouço um Fado (música portuguesa), presencio a tranquilidade deste dia que se inicia, o céu sem nuvens atrai meu olhar, prende meus devaneios e a mente oscila conforme o ritmo.

Ouvindo agora uma MPB que surge pelo pequeno auscultador como um radiante sol em dias nublados, alegra-me o coração, mas a saudade ainda dói... O desejo não pode mudar os fatos, porém a necessidade faz estancar a vontade.

            Vejo as pessoas caminhando pelas ruas e penso: ‘quantas histórias, quantos capítulos de vida’ e assim sigo até meu destino... Todos os dias vejo casas antigas, prédios em construção, monumentos históricos, o oceano que se perde na linha do horizonte para então se juntar ao imenso azul do céu.

As palavras que aqui materializo neste bloquinho formam um mosaico do que tem sido esta experiência, da mesma forma como as pedras das calçadas que direcionam o caminhar dos transeuntes de Lisboa. Encostado a um antigo muro que sei lá quando e por quem foi construído, recebo gratuitamente o calor do sol que aquece a minha face, enquanto aguardo pacientemente a carona do meu patrão que me conduzirá até o trabalho.

Falo de tudo e de tudo nada sei, são as controvérsias da vida. Descrevo, relato, registro e faço das palavras o meu testemunho. Daqui há algumas dezenas de primaveras as flores novamente irão brotar, assim como a chama da saudade ao reler estas frases.

             Nesta manhã de Maio de 2001, a neblina limita meu olhar cansado e com sono. Tenho de madrugar para não perder a hora, a persistente neblina ofusca minha visão, todavia, não me impede de fisgar nos olhares dos companheiros de viagem os traços de cansaço, possivelmente, preocupação, ansiedade e estresse, sendo eles na sua maioria imigrantes, pessoas oriundas dos mais distantes lugares, presos assim como eu nos trilhos da vida, pois todos temos as nossas histórias e lidas diárias, conforme a trama da novela chamada: Existência...

As janelas do comboio continuam transparentes, a cada viagem a linha do horizonte parece maximizar, personalidades estranhas já não me dispersam da panorâmica. O que realmente ainda não consigo entender é que as mesmas janelas dos prédios e casas continuam assim como no inverno, todas fechadas dando um ar de isolamento.  

            Aqui os dias voam e as horas sequer são notadas, novamente é sábado e chegamos a mais um final de semana. Dia chuvoso, porém não tão frio, neste momento sigo para o trabalho. As águas do Rio Tejo bailam de uma margem a outra como se coreografia tivessem, os carros com seus vidros embaçados protegem os condutores, as paredes das velhas casas já acostumadas com o clima dão ar de pouca importância e os turistas guiados pela agenda do sol, escondem-se. E tudo segue normalmente conforme a programação que me é oferecida pela janela do Comboio. 

            A cada dia surgem novas dificuldades, a cada dia é menos um dia, a cada dia penso no outro dia, dia que judia, que me cria, alivia e sei lá, quem no meu lugar, o que diria!?... O ato da escrita já não faz tanto efeito, não me traz mais o sossego, mas é preciso continuar o testemunho, relatar o presente, mesmo que este não seja tão contente.     

Sentado na janela deste prédio, com o estômago e a cabeça cheia, me apoio na parede e neste pequeno pedaço de papel. Na minha frente vejo inúmeros prédios em construção, até parece que houve por aqui um terremoto ou mesmo uma grande explosão, e tudo estaria em reforma.

 Neste verão tudo toma cor diferente, as pessoas parecem sair de suas tumbas, aquele ar cinzento e fúnebre dá lugar a alegria e animação. Aqui no Comboio as pessoas leem seus jornais e revistas, procuram se informar das notícias recentes. E eu sigo registrando o meu presente, não para me distrair mas como uma válvula de escape.

Não estou conseguindo articular minhas ideias, os pensamentos fogem, a cabeça dói, ainda não fui e já quero voltar, mas não posso! Neste país que me recebeu bem, falo Português, bebo refrigerante, ouço MPB, vejo futebol e acompanho as novelas. Tudo parece igual e nada faltar, mas careço da minha família, do calor do nosso sol, do frescor das nossas águas, enfim, somente estando longe é que pude perceber o quanto o nosso verde é mais verde e o azul é mais azul...

 Neste sábado o sol veio novamente felicitar-nos por mais um dia. O mar para não contrariar se pôs a refleti-lo nas suas ondas, que juntas formam um imenso lençol azul. Olhando para os trilhos que segue paralelo a este comboio, reflito: “Se a vida fosse contínua desta forma, que graça teria? Como poderíamos crescer sem a alavanca dos problemas para nos impulsionar? Realmente não teria graça!...”

Portanto, Deus que é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas, com sua plena sabedoria criou o mundo como um grande, complexo e perfeito mecanismo.

            

A rua

postado em 19 de dez de 2014 08:24 por Andre Martins   [ 19 de dez de 2014 10:21 atualizado‎(s)‎ ]

Wesley DinizFerreira
 
Professor de Arte e formador  no Cemepe

Via todo dia,

A via da rodovia,

A via que nem sequer me via,

E pela via temos que passar...

 

Horas de ida, horas de volta, dela não podemos escapar!

Vejo os indivíduos antropocêntricos no tablado chamado RUA.

Paro e olho naquele momento,

A violência crua e nua...

 

 

A prostituição não é mais privilégio da noite!

A informalidade não é mais somente dos iletrados!

A mendicância não é mais só dos mendigos!

A RUA não é a mesma do passado!

 

 

Por ela passam os enclausurados – zumbis do capitalismo, sufocados pelo consumismo.

A RUA este grande teatro urbano,

Cenário social de agentes ativos e ao mesmo tempo passivos,

Guiados por fatores ideológicos e políticos.

 

 

A RUA esta grande vitrine mutável,

Na história é testemunha ocular,

Viu os cavalos se mecanizar e a luz por si só acender e apagar.

As vestimentas dos transeuntes se modificar.

 

Na rua me divirto e às vezes me complico,

De repente nem sei mais quais são meus direitos e deveres.

O público em função do privado,

O privado em função dos seus interesses...

 

 

Olho para as pessoas e tento entende-las...

Não vejo alma,

Não vejo vida.

Presencio apenas corpos andantes, mentes flutuantes.

 

 

Não vejo mais as brincadeiras de criança,

O urbano mudou de figura.

A tecnologia retirou-as da RUA, e como fada madrinha,

Apresentou-as aos jogos eletrônicos...

As brincadeiras acabaram!

E com elas os bate-papo dos vizinhos, o sossego dos velhinhos, o cantar dos passarinhos... 

A Procura

postado em 18 de dez de 2014 11:24 por Andre Martins   [ 19 de dez de 2014 01:41 atualizado‎(s)‎ ]

por Selma Souza
http://www.toondoo.com/View.toon?param=8307459

Renascimento

postado em 18 de dez de 2014 10:28 por Andre Martins   [ 18 de dez de 2014 11:26 atualizado‎(s)‎ ]

Lucilaine de Fátima
Lucilaine de Fátima nasceu em 10 de maio de 1970, em Itumbiara, GO, considera-se mineira de coração, por morar em Uberlândia desde os quatro anos de idade. Pedagoga, diretora da Academia Leonística Mineira e Brasiliense de Letras. Promotora de eventos culturais em Uberlândia e trabalha na biblioteca do Cemepe.

Lucilaine carrega a poesia dentro de si e costuma dizer que é preferível parar de tomar água que parar de escrever. 



Poema do livro solo de poesias O AVESSO DO SER, lançado em junho de 2010

MAIS sobre o livro e a autora:  BLOG  AVESSO DO SER    FACEBOOK DO LIVRO  

1-4 of 4