Dependência Digital: viver conectado não significa estar próximo

postado em 4 de mai de 2015 12:30 por Andre Martins   [ 15 de jun de 2015 12:14 atualizado‎(s)‎ ]

Mauro Sérgio Santos (*)

 

Em uma carta ainda pode cair uma lágrima, mas um e-mail nunca se fará acompanhar de sentimentos (José Saramago)

 

Uma das características da sociedade contemporânea é, seguramente, a presença da tecnologia nas diversas esferas da vida humana.Vivemos em um mundo cercado e, em certa medida, dominado pela tecnologia que, inegavelmente, promove inúmeros benefícios à vida das pessoas. No entanto, o uso exagerado de ferramentas digitais e a necessidade de estar sempre “conectado” podem ser os sintomasde inúmeros problemas como: a necessidade excessiva de exposição, o culto exacerbado à própria imagem, o individualismo, os reflexos negativos na educação e, para nossa análise, a virtualização da vida cotidiana e a dependência digital.

A dependência digital ocorre quando um indivíduo passa a desvincular-se da sociedade para permanecer mais tempo em frente a um computador, com o celular, tablete, smartphone ou qualquer outro dispositivo da vasta parafernália disponível no mercado. A pessoa é considerada desenvolvida quando, por exemplo, fica verificando a caixa de e-mail constantemente, quando participa compulsivamente em salas de bate‑papo, quando utiliza indiscriminadamente jogos on-line, sites específicos, aplicativos diversos e redes sociais de forma a prejudicar sua vida cotidiana.

É importante evidenciar que a utilização da Internet e seus benefícios não caracterizam, em si, a dependência digital, mas o isolamento perante o convívio social pode ser o indicativo inicial de hábitos nocivos.

Os dependentes digitais são aqueles que já não conseguem conciliar o envolvimento com a tecnologia com a vida “real” e social, o que pode, além do isolamento, provocar desconforto emocional, ansiedade, agitação, dificuldade de concentração, irritabilidade, depressão, perturbação e os mais variados transtornos.

Quando ocorre com adultos, a dependência digital pode ser tratada com terapias, mas, quando ocorre em crianças e jovens, além da terapia psicológica, deve haver a interferência dos responsáveis quanto ao uso do computador ou do celular que pode ser feita de diferentes maneiras, levando-se em consideração cada situação.

Não há consenso, mas diversas pesquisas apontam para o fato de que o uso prolongado de ferramentas e aplicativos facilitadores de buscas e pesquisas promove não apenas um estado vicioso de dependência, mas também relacionamentos interpessoais fluidos, baseados em fatores supérfluos e sem envolvimentos. Pessoas que utilizam exacerbadamente a Internet, “virtualizam”, por assim dizer, outras esferas de suas vidas, pois aderem a relacionamentos íntimos, de amizade e de competições virtuais, transformando o próprio organismo num organismo virtual. O indivíduo se conecta com o mundo, todo mas não se relaciona com seus familiares nem conhece seus vizinhos mais próximos.

O problema se intensifica, quando as relações humanas são inteiramente substituídas pelas relações virtuais ou quando as barreiras entre o humano e cibernético, o real e o virtual não estão suficientemente claras. O mau uso da tecnologia produz o individualismo, o isolamento e a desumanização.

Estar conectado não significa estar próximo. Visualizações nem sempre denotam interesse. Curtidas não significam aprovação, compartilhamentos não refletem solidariedade ou consenso, seguidores não são necessariamente nossos amigos, informação não é conhecimento; e conhecimento não é garantia de sabedoria.

  


(*) Mauro Sérgio Santos (mauro.filos@hotmail.com), mestrando em Filosofia (UFU), professor de Filosofia e membro da Academia de Letras e Artes de Araguari, MG. Autor do livro: Camaleão: metapoesia.