Crise Política (*)

postado em 22 de dez de 2015 06:43 por Andre Martins   [ 22 de dez de 2015 09:12 atualizado‎(s)‎ ]
por Mauro Sérgio Santos (**)

A palavra crise vem de krinein. É de origem grega e significa momento de decisão, distanciamento para reflexão; preparação para o início de um momento novo (bom ou ruim). A expressão grega krísis também era usada pelos médicos antigos com um sentido bastante específico e, no entanto, útil para pensarmos questões políticas de nossos dias.

Quando o doente, depois de medicado, entrava em crise, era sinal de que haveria um desfecho: a cura ou a morte. Aliás, a vida é feita de ocasiões críticas que ensejam o novo: a morte da semente para o nascimento da flor, a superação da infância no processo de “adolescer” para a passagem à vida adulta, a casca do machucado que dá origem à nova pele; a antítese que em conflito com a tese dá forma à síntese (…) Em todos os casos, da experiência da crise emana algo novo: bom ou ruim.

 Indubitavelmente, vive-se um momento de crise econômica mundial e, por conseguinte, econômica e política nacional, ocasião na qual apresenta-se necessário: parcimônia, bom senso e reflexão para que o desenlace seja o mais benéfico possível para a coletividade. A crise é inerente à construção e ao aprimoramento da democracia. Mas é também condição favorável ao retrocesso.

 Nestes quase 30 anos de processo de redemocratização do País, avançamos significativamente. Superamos a inflação da primeira hora; condicionamos a independência dos três poderes, oportunizamos a alternância do poder político, criamos um sistema eleitoral admirado internacionalmente; possibilitamos o funcionamento autônomo das instituições governamentais como o Ministério Público e a Polícia Federal; superamos a miséria e distribuímos um pouco melhor a riqueza.

 Todavia, o fantasma do retrocesso sempre nos faz companhia, manifestando-se precipuamente nos momentos de crise. De um lado, a possibilidade do retorno de forças autoritárias, da vitória do oportunismo, da preponderância do “quanto pior melhor”, da primazia dos interesses pessoais sobre a coletividade, da politização do Judiciário, da judicialização da política, da militarização dos processos educativos, das pedaladas políticas, jurídicas, militares, ilegítimas, escusas.

 De outro, a opção pela democracia e por seu fortalecimento, o respeito à Constituição, a manutenção do Estado Democrático de Direito, a independência dos poderes, o reconhecimento da soberania do voto popular, a liberdade de imprensa, a ampliação dos direitos civis das minorias, a universalização dos direitos humanos. Neste momento de crise, a sociedade brasileira pode e é capaz de reinventar a esperança. E, sim, nós podemos.