O tempo presente

postado em 11 de dez de 2015 11:11 por Andre Martins   [ 11 de dez de 2015 11:20 atualizado‎(s)‎ ]

por Mauro Sérgio Santos (*)

Uma das tarefas mais caras às ciências humanas é a compreensão do mundo em que vivemos, do tempo presente, da sociedade contemporânea. Trata-se de um empreendimento complexo na medida em que não é possível lançar mão do distanciamento histórico.

No entanto, muitos são (foram) os que, ainda assim, debruçaram-se sobre o empreendimento de descrever e caracterizar a sociedade hodierna. Entre essas tentativas destacamos: a Escola de Frankfurt, as ideias de Foucault, Bauman e Debord que, respectivamente, nomearam a sociedade contemporânea como “sociedade de consumo”, “sociedade disciplinar”, sociedade “líquida” e do “espetáculo”.

Para os filósofos de Frankfurt, na sociedade capitalista atual, os indivíduos imaginam conseguir dignidade e identidade por meio da relação trabalho-consumo. No capitalismo, o que dá a sensação de sentido à vida das pessoas é o trabalho que garante a construção da identidade dos sujeitos por meio do consumo. “É preciso estudar e trabalhar para ser alguém na vida”, “O trabalho dignifica o homem”, “Consumimos, logo existimos”.

Michel Foucault descreve a sociedade moderna em termos de uma sociedade disciplinar. Nas democracias atuais, há uma ilusória sensação de liberdade. Todavia, alerta-nos o pensador, que o poder, em nossos dias, não está centrado apenas no setor político ou em determinada instituição, mas disseminado por diversas instâncias da vida social. Fragmentou-se, tornando‑se ainda mais eficaz. A bem da verdade, nós nos submetemos a sistemas criados por nós mesmos que possuem aparente impessoalidade e onipotência. Suas normas são inquestionáveis e irrecorríveis. Não há a quem reivindicar se “o sistema não permite” ou “está fora do ar”.  É o que acontece, por exemplo, quando estamos diante de um caixa eletrônico ou travando uma disputa com qualquer operador de telemarketing quando surge, repentinamente a mensagem: “o sistema não permite esse tipo de operação”.

[...] o mosaico da atualidade: a alienação, a notória preponderância do indivíduo sobre a coletividade, o consumismo e o hedonismo exacerbados, a superexposição, o desejo de fama mais que de sucesso e realização  

Para o sociólogo polonês ZygmuntBauman, cada vez mais a sociedade, em geral, possibilita menos contatos entre os indivíduos e estes são gradativamente menos duradouros e consistentes. Vivencia-se relações cada vez mais líquidas, fluidas, volúveis, superficiais. Não há experiências sólidas de utopias, projetos coletivos e engajamento político efetivo.  Afirma o pensador:"as relações escorrem pelo vão dos dedos". Para Bauman, a busca do prazer individual é o fim último da vida das pessoas em nossos dias.

Por fim, é igualmente relevante, a análise do sociólogo francês Guy Debord que nos conduz à ideia de que “a sociedade do espetáculo é o próprio espetáculo, a forma mais perversa de ser da sociedade de consumo”. É o mundo no qual o superficial e o aparente possuem status de sentido, o “parecer ser” se sobrepõe ao ser, a ficção mistura-se à realidade, o virtual confunde-se com o real. Para Debord, os meios de comunicação de massa são apenas a manifestação superficial mais esmagadora da sociedade do espetáculo, que faz do indivíduo um ser infeliz, anônimo e solitário em meio à massa de consumidores. Os noticiários apresentam uma estrutura melodramática ao passo que as telenovelas criam uma pretensa realidade.

Nesta direção, a sociedade contemporânea pode ser pensada como um momento de inflexões e indagações acerca dos modelos econômicos e sociais que estão postos e construídos pelas pessoas que pertencem a esta sociedade.

Esses pensadores, juntos, desvelam contradições, paradoxos e dilemas do mundo em que vivemos. Todos eles, de alguma forma, apontam para alguns elementos que constituem o que parece ser o mosaico da atualidade: a alienação, a notória preponderância do indivíduo sobre a coletividade, o consumismo e o hedonismo exacerbados, a superexposição, o desejo de fama mais que de sucesso e realização. A aparente supremacia da aparência, da superficialidade, do relativismo e da fluidez; o excesso de visibilidade que se converte em armadilha; a confusão entre ficção e realidade. A supremacia do ter e do parecer ser sobre o ser.