Opinião


Assim caminha a humanidade...

postado em 3 de mai de 2016 09:28 por Andre Martins   [ 3 de mai de 2016 09:38 atualizado‎(s)‎ ]

por Marta Fontoura Queiroz Cantuário (*)

Ainda vai levar um tempo pra fechar o que feriu por dentro. Natural que seja assim, tanto pra você quanto pra mim. 

[...] assim caminha a humanidade, com passos de formiga e sem vontade[...]

SANTOS, Lulu. Assim Caminha a Humanidade,  1994.

Ao observar o trecho da  canção de Lulu Santos, adveio-me o seguinte questionamento: Para qual destino caminha a humanidade? Em qual lugar chegaremos, considerando nossas escolhas diárias e também as escolhas do outro?


Voltando o olhar para a escola e para o currículo que ela tem ofertado, é  possível indagar também : Em que medida a escola tem contribuído não somente para a aprendizagem, mas para a educação do sujeito? Que a parte cabe à escola nesse processo de construção de uma visão humanizadora da educação, contemplando  aspectos voltados para a convivência, para a não violência e para uma aprendizagem significativa?


Sempre entendi que a escola deveria ser o lugar do fino trato e  da educação. No entanto, a instituição escolar, muitas vezes, tem sido o espaço da violência nos mais diversos sentidos. É onde, às vezes, impera a falta de respeito, sobressai a não aceitação das diferenças  e prevalece  o preconceito e a intolerância.


É importante compreender que atitudes de violência não são exclusividade de um grupo  e compreender também que elas perpassam todos os segmentos da sociedade. Estamos imersos em uma cultura de violência cujos paradigmas, às vezes, nós mesmos seguimos. E isso sem perceber o caminho que estamos trilhando, sem perceber os sentidos e implicações de algumas atitudes que tomamos. É possível notar relações vazias de respeito mútuo, relações desprovidas de autoridade e, ainda, relações recheadas de autoritarismo.


Continuando o olhar para a escola, é possível compreender que, pela a sua própria dinâmica, há ausência de tempo para a escuta e que há, também,  ausência  de tempo para a observação do outro, no sentido de compreender a realidade para planejar ações bem fundamentadas, carregadas de sentido. Esse tempo ausente poderia levar a   resultados positivos. Infelizmente, porém, convivemos com a realidade da indisciplina, falta de respeito nas relações, convivemos  com profissionais que sofrem de om doenças emocionais.  Alguns  precisam continuar a exercer a profissão apesar de terem perdido a motivação ou desejo de continuar.


Talvez fosse o momento de olharmos para o outro com o sentimento de alteridade. Sempre achamos que são as mais corretas e as melhores a nossa maneira de refletir sobre o mundo. Sempre  as nossas convicções políticas e religiosas e as nossas opiniões.  Parafraseando o compositor Leoni, às vezes enxergamos o outro como somente o outro, e só.


Enquanto estudiosos, pesquisadores e formadores têm investido tempo em discutir sobre a importância da educação para a sensibilidade, o discurso da violência tem ganhado terreno e força. Muitos são os que querem ter mais e mais, mesmo que isso seja resultado do ser e do ter menos do outro.


E assim caminha a humanidade, com seus problemas e intolerâncias. E nós continuamos, com nossas velhas e enraizadas concepções, com nosso discurso e modo de ver o mundo. Visão torpe  com a qual nos deixamos convencer, visão míope com a qual tentamos convencer o outro de nossos argumentos  são os melhores.


Finalizo este texto com um pensamento de Paulo Freire.que traz um  sentimento de esperança.. Entendo que é possível deixar de caminhar com passos de formiga e imprimir, no chão da existência, pegadas firmes. Pegadas que só são dadas por aqueles que  cuja vontade e objetivos são bem delineados. Paulo Freire diz:


Gosto de ser gente porque, mesmo sabendo que as condições materiais, econômicas, sociais e políticas, culturais e ideológicas em que nos achamos geram quase sempre barreiras de difícil superação para o cumprimento de nossa tarefa histórica de mudar o mundo, sei também que os obstáculos não se eternizam (FREIRE 2010, p. 54).


Continuemos.


O Parteiro de Ideias

postado em 30 de mar de 2016 05:23 por Andre Martins   [ 30 de mar de 2016 07:12 atualizado‎(s)‎ ]

Mauro Sérgio Santos (mauro.filos@hotmail.com)

Sócrates (469-399 a.C) Nascido em Atenas. Conforme consta, filho de uma parteira e de um escultor. Considerado por alguns o maior filósofo de todos os tempos, é um marco divisor na história da Filosofia Antiga. Este pensador personifica o paradigma da figura do filósofo-educador. Não deixou nada escrito. O que sabemos sobre ele o sabemos por meio de seus discípulos. Sócrates muda o objeto e o método da filosofia. Com ele, temos o irromper do período antropológico da história do pensamento filosófico ocidental.

Sócrates vivia de maneira humilde, percorrendo descalço as ruas de Atenas. Tornou-se o filósofo por excelência, o genuíno “amigo do saber". Passou a ensinar em praça pública sem cobrar pelos seus ensinamentos, ao contrário do que faziam os sofistas. Seu método consistia em fazer perguntas que conduziam o discípulo à descoberta da verdade.

Morre acusado injustamente de desconfiar dos deuses do Olimpo e de corromper os jovens com suas ideias. É condenado a beber cicuta, um veneno que provoca a paralisia generalizada dos órgãos.

Diferentemente dos seus antecessores, a preocupação filosófica prioritária do pensamento socrático não é outra senão o homem, sua essência, sua vida moral.  O que é o bem, a justiça, a virtude?

Seu pensamento tem 3 (três) grandes eixos, quais sejam: a questão do autoconhecimento, a noção de sabedoria e método filosófico.

Sócrates ocupa-se da investigação do ser humano. O que é o Homem? Qual é a sua essência? Quem é você? São questões que perpassam os acontecimentos e diálogos acerca de Sócrates narrados por Platão e Xenofonte. Como alguém pode ousar conhecer o mundo exterior aquele que sequer conhece a si mesmo?

Nesse sentido, Sócrates recobra a frase do Oráculo, tornando-a um dos princípios de sua filosofia, vem a ser: “Conhece-te a ti mesmo”. Trata-se de uma tarefa árdua, mas necessária e bela. A escolha é exclusivamente individual: podemos viver como se nada disse tivesse sentido ou dar sentido a essa trajetória denominada existência. E, sob a perspectiva socrática, uma das maneiras de transcender ao absurdo é o autoexame, a autoinvestigação, o voltar-se sobre si mesmo. Afirma o filósofo: “Uma vida sem exame não é digna de ser vivida”. O conhecimento pleno de si mesmo talvez seja um empreendimento inatingível, mas a própria reflexão já é, por si, a realização. Assim como nas palavras da compositora brasileira, Ana Carolina, que diz: minha procura por si só, já era o que eu queria achar. Ou conforme exorta-nos Eduardo Galeano: a verdade está na viagem não no porto. Não há mais verdade que a aventura da viagem. E é a aventura dessa viagem que faz com que valha a pena essa piscadela que somos na história do Universo.

Aliás, alerta-nos Sócrates: o reconhecimento da própria ignorância é o primeiro passo rumo à sabedoria. É esta a reflexão que pulula da conhecida máxima “Só sei que nada sei”. No embate com pretensos sábios de sua época, Sócrates conclui: “Ele supõe saber alguma coisa e não sabe, enquanto eu, que não sei, tampouco suponho saber. Parece que sou um pouco mais sábio que ele exatamente por não supor que saiba o que não sei.” 

Para a reflexão educacional, um contribuição sobremaneira significativa reside no que podemos compreender como seu método, dividido em dois passos: a ironia e a maiêutica. Ironia: pergunta, questionamento, interpelação. Maiêutica: ajudar a trazer à luz as ideias, arte da parteira.

Para Sócrates, o discípulo, no usos de suas próprias potencialidades, quando orientado pode, por si mesmo, gestar suas próprias ideias. Quem sente a dor e faz o grande esforço é o educando. Cabe ao filósofo-educador a tarefa de colaborar com esse processo a exemplo do que ocorre no parto propriamente dito.

Depreende-se do conhecimento da vida e das ideias de Sócrates o reconhecimento de um homem simples e coerente até as últimas consequências. O mestre de Atenas dá o exemplo do que propôs com o suor e o próprio sangue. Acerca do desapego e da simplicidade afirma: (...) não te envergonhas de cuidares de adquirir o máximo de riquezas, fama e honrarias, e de não te importares nem pensares na razão, na verdade e em melhorar tua alma?

E, no tocante à dedicação à reflexão filosófica estabelece: enquanto tiver ânimo (...) jamais deixarei de filosofar, de vos advertir, de ensinar em toda ocasião àquele de vós que eu encontrar. 

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