Marta Fontoura (literatura)

Neste  número trazemos duas obras da literatura infanto-juvenil inéditas da escritora Marta Fontoura

NASCI BURRO, E AGORA?

postado em 24 de jun de 2016 10:08 por Andre Martins   [ 19 de jul de 2016 10:39 atualizado‎(s)‎ ]

Nasci  burro, e agora?

Marta Fontoura Queiroz Cantuário

Não é fácil nascer burro. A gente já nasce com rótulo, pois nosso nome é utilizado como significado de falta de inteligência, dificuldade para aprender... fora outras coisas, ainda piores de se ouvir.

Fico indignado ao ouvir expressões como: “que burrice!” ou “você é burro!”, que usam o nosso nome como xingamento. Há outras expressões como “Orelhudo!”, que vem criticar nossas orelhas, que nada têm a ver com a história, e outra pior ainda que é: “Vá pastar!”.

Na verdade, sobre esta última, gostaria de dizer: o que é que as pessoas têm a ver com o pasto que comemos? Nossa comida é fresca, natural e... afinal de contas, as vacas, as ovelhas, as cabras... todas pastam e ninguém diz nada, já os burros, nem direito de comer sossegado eles têm.

Eu, por exemplo, cresci com as pessoas me dizendo: “Você é um burro, não tem crédito”, “você é mistura de cavalo com jegue, tanta mistura não poderia dar em boa coisa”, ou ainda “burro só serve para serviço duro, como montaria, carregar carga...”.

Cresci acreditando nisso e parei de me esforçar. Pensei comigo: sou burro! Todos sabem que burros são burros, não conseguem aprender e nunca vão se destacar. Por isso, continuarei nesta minha vida. E continuei.

Na escola quando a professora explicava eu não prestava atenção. Já que eu era burro mesmo, pra que perder tempo?

Às vezes deitava na carteira e dormia na escola, nem tentava fazer as tarefas. Afinal, eu era um burro, e burros não são capazes.

Meu boletim escolar era uma tristeza, vermelho do começo ao fim.

Minha mãe sempre foi uma bela égua, admirada pela sua beleza e imponência. Todos sempre concordaram que ela vale muito, que qualquer um se orgulharia em desfrutar de sua companhia. Ela sempre acostumou a cavalgar com cabeça erguida, olhar seguro e passos firmes.

Meu pai, um jegue educado, sempre foi admirado pela sua maneira peculiar de urrar. Quando papai emitia seu som característico, muitos eram os que se aproximavam para ver, uns com caras alegres, outros apenas curiosos, sempre fazendo alguma pergunta ou comentário. Uns perguntavam: “Como você consegue emitir esse som?” Outros falavam: “Que fôlego! Você é um campeão”.

Percebi que meus pais eram admirados, afinal, todos os bichos eram admirados por alguma coisa que faziam ou até mesmo pela beleza. Quanto a mim, do que as pessoas poderiam gostar?

Vou confessar uma coisa, eu sentia vergonha de meus pais e pensava comigo mesmo: Meus pais devem se envergonhar de serem pais de um fracassado como eu.

Na verdade, eu me sentia diferente de todos, uma aberração.

Quando minha professora convidava meus pais para a reunião escolar eu me sentia desolado. Logo começava a sessão de acusação. Ela dizia:

- Seu filho está com notas ruins. Não faz tarefas, não consegue aprender, vive dormindo na sala e isto e aquilo outro mais.

Assim a professora desfiava uma lista do que eu deveria fazer e não fazia e do que eu fazia e não deveria fazer.

Meus pais ouviam tudo e quando chegava em casa me chamavam para conversar.

- Meu filho – diziam eles. Você é nosso único filho. Você pode aprender muitas coisas na escola, basta se esforçar um pouco, prestar atenção e fazer o que lhe é solicitado.

Eu ouvia a tudo com atenção, mas não acreditava. Afinal, meus pais eram diferentes de mim. Eles eram inteligentes, mas eu era uma mistura que não deu certo e ninguém me convencia do contrário.

Triste por ser um burro, um dia saí a percorrer os campos, a fim de aliviar a tristeza e a melancolia que existiam dentro de mim. Eu não conseguia vislumbrar a esperança, pois acreditava que para quem é burro não tem jeito.

Andando de um lado para o outro, me pus a observar os animais e suas peculiaridades.

A formiga era trabalhadeira, tinha uma força fenomenal, gostava de trabalhar em grupos e seu lema era “A união faz a força!”, mas, por outro lado não havia compreendido o significado da palavra lazer, por isso, vivia reclamando de dor nas costas e de falta de tempo para a família.

A cigarra era boêmia, só gostava de cantar, não se preocupava com o dia do amanhã e raramente era vítima de estresse ou tristeza, mas... por outro lado, era difícil ver uma cigarra bem sucedida financeiramente.

O gambá, ah, esse era triste! Usava seu cheiro para impor respeito, mas no fundo não era muito bem relacionado com os de outras espécies.

D. Pata era muito asseada, porém possuía a fama de ser um pouco molenga.

O gato era tido como exemplo de beleza, mas todos diziam que ele é muito preguiçoso e não gosta de tomar banho.

Já o cachorro, o grande amigo do homem, era um bom guarda, mas geralmente amava mais o seu dono do que a si mesmo, tinha problemas de auto-estima.

Ao prestar atenção em como vivia, procedia ou se relacionava cada animal, fui percebendo aos poucos que todos possuem defeitos e qualidades, dificuldade para fazer algo, mas facilidade para fazer outro.

Após esse período de observação pude entender que eu deveria ser bom para alguma coisa e não era possível servir só para carregar cargas e trabalhar duro.

Pesquisando sobre os animais, descobri que a coruja é muito sabida, pois dispõe de muito tempo para observar as coisas e tirar suas conclusões. Assim fui procurá-la.

Rejeitado como sempre me sentira, cheguei meio cabisbaixo e cumprimentei:

- Bom dia, Dona Coruja!

- Bom dia! - Ela me respondeu com tom meio rouco e grave.

- Dona Coruja, preciso conversar com alguém que compreenda a vida para me esclarecer sobre algo. Como sou burro, não sei se vou compreender, mas vou tentar, pois tenho muita vontade de esclarecer uma situação.

Assim, relatei à coruja minhas angústias, meus traumas e minha triste condição de burro. Quando terminei, Dona Coruja me olhou nos olhos, com aqueles olhos amendoados que parecem estar lendo a alma da gente. Confesso que tremi, com medo do que ela viesse a me falar naquele momento.  Ela começou falando em tom suave, com sua voz rouca e segura.

- Bernardo!

Ao ouvir Dona coruja me chamar pelo nome senti um gelinho no coração. Na verdade, as pessoas quase nunca me chamavam pelo nome, só de burro. E nunca para fazer referência à minha raça, mas de maneira preconceituosa, para ferir ou magoar.

Com essa dela dizer o meu nome, me senti melhor e ergui minha cabeça para ouvir o que viria depois. Assim, ela continuou:

- Você é um animal como outro qualquer. Com dificuldades para realizar umas coisas, facilidades para fazer outras e com algumas limitações que o impedem de fazer outras. Por exemplo: você não pode voar como eu, pois seu corpo não foi projetado para isto, mas possui força, beleza e inteligência.

Sobre esta última palavra tomei um susto, e o gelo que estava sentido no peito passou também para a barriga.

Dona coruja nem ligou para a minha cara assustada e continuou dizendo:

- Todos somos peças importantes no mundo, por isso somos diferentes nos aspectos físicos e comportamentais, o que os animais fazem com você é puro preconceito. O mundo precisa de burros valentes, dispostos a lutar contra esse preconceito absurdo em busca da construção de um mundo animal mais decente e inteligente. Na verdade, - acrescentou ela - é falta de inteligência pensar que outros são inferiores a nós, somos apenas diferentes, nada mais.

Eu prestava atenção em cada palavra, com os olhos bem arregalados, enquanto ela dizia:

- Alguns animais têm facilidade para fazer umas coisas, mas pode estar certo, não terão para outras. Eles estão equivocados sobre os burros, cabe a você mostrar que estão errados.

- Mas, como poderei fazer isso? - perguntei.

- Ah - me disse ela - isso vai requerer uma mudança de postura. Eu diria que você deve ter três atitudes básicas. A primeira é reconhecer que você é inteligente, que é capaz; você precisa acreditar nisso mesmo que ninguém acredite e andar de cabeça erguida. A segunda é você mudar de comportamento, passando a se esforçar mais, a estudar, a prestar atenção nas coisas e fazer um exercício mental para compreendê-las. A terceira é você se orgulhar da sua raça: primeiro temos que nos valorizar, para depois os outros fazerem o mesmo.

Dona coruja acrescentou:

- Eu sempre acreditei na capacidade dos burros, só não entendo como vocês ainda não tomaram nenhuma atitude para mudar essa situação.

Após essa última bronca, que por sinal foi muito válida, me despedi de minha conselheira. Ela ainda me chamou e disse:

- Guarde em sua mente e coração tudo o que eu lhe falei, mas nunca se esqueça do que lhe direi agora: viva sempre um dia de cada vez.

Fiquei feliz com tudo que ouvira e a partir dali comecei a dar os primeiros passos para a grande mudança de minha vida.

A primeira coisa que fiz foi repetir para mim mesmo que eu era inteligente, que eu era capaz, toda vez que um pensamento contrário vinha à minha mente. Com o passar dos dias, fui acreditando nisso e, se antes andava cabisbaixo, passei a andar de cabeça erguida.

Assim que acreditei na minha capacidade, pude ver sentido em me esforçar para aprender. Meu esforço valeu a pena. No início, as pessoas achavam que era transitório ou por acaso. A mudança de minhas notas escolares também não foi tão expressiva no começo, mas fui melhorando dia a dia, e quando pude perceber, era um dos alunos mais brilhantes da escola da floresta.

Agora tudo está mudando. Os animais passaram a ter um testemunho vivo de que burros são inteligentes, eu estava ali para provar isso. Já não tinha mais motivos para envergonhar de minha raça. Na verdade, os animais começaram a me respeitar.

Hoje, quando olho para trás, vejo o quanto perdi por não acreditar em mim mesmo. Por isso eu me valorizo, mesmo que ainda nem todos façam isso. Quando alguém vem com gracejos, não me canso de dizer: sou burro sim, com muito orgulho. Eu digo isto não para criar confusão, mas porque eu realmente me orgulho de minha raça, por isso tenho motivos de sobra para andar de cabeça erguida.

Muitos não compreendem direito, outros acham engraçado; porém eu sou um burro inteligente e isso faz toda a diferença. Além do mais, também sou forte, corajoso e persistente. É por isso tudo que eu adoro ser burro, pois me sinto especial, capaz e... feliz, muito feliz.

FILOMENA TE CONTEI

postado em 24 de jun de 2016 09:59 por Andre Martins   [ 24 de jun de 2016 10:05 atualizado‎(s)‎ ]

Filomena te contei
Marta Fontoura Queiroz Cantuário

Filomena Te Contei, conhecida pela maioria como Fifi, era uma arara muito fofoqueira. 

Ela ficava o dia todo sobrevoando os campos e a floresta, a fim de observar a vida dos animais para contar o que viu e ouviu para outros. Dessa maneira, Fifi passava os dias, sem ter tempo para perceber sua própria vida.

Algumas coisas que Fifi contava eram realmente acontecidas, mas ela tratava de dar uma apimentada na história, para causar confusão, inimizades ou denegrir a imagem de alguém. 

É certo que, ao agir dessa maneira, as histórias deixavam de ser totalmente verdadeiras. Pode-se dizer que Fifi não só aumentava, mas inventava histórias e contava essas invenções como verdade, causando muita confusão no reino animal.

Ela, sempre que chegava perto de alguém, ia logo dizendo: “Te contei?”, e a seguir contava um tanto de coisas desagradáveis, na maioria das vezes envolvendo a pessoa com quem estava falando.

Um dia, sem mais nem menos, ela chegou para o Tucano Tobias e foi logo dizendo:

- Tobias, te contei? A Coruja Pelucha me disse que o seu bico é muito comprido, parece maior que o corpo; por isso, ela não sabe como um corpinho tão fraquinho como o seu consegue suportar o peso do bico.

Tobias ficou chateado, mas, ao invés de conversar com Pelucha, resolveu parar de lhe dar atenção. Quando ela passava perto dele e tentava cumprimentá-lo, ele virava a cara. Quando ele percebia que ela estava vindo em sua direção, tratava de sair disfarçadamente antes que ela chegasse onde ele estava, fingindo que era por acaso.

Cansada dessa situação, a Coruja Pelucha reclamou:

- O Tobias anda tão estranho comigo, será que aconteceu alguma coisa?

Fifi escutou o comentário da coruja e foi logo contar para o tucano:

- Tobias, te contei? A Pelucha, além de falar mal do seu bico, anda dizendo por aí que você está estranho! Será que ela pensa que você é bobo, que ia aceitar ela ficar falando mal de sua pessoa sem ao menos mostrar indignação?

O tucano ficou ainda com mais raiva disse baixinho:

- Agora sim é que eu não falo mais com aquela atrevida.

Fifi aproveitou a fala do tucano e novamente correu para contar para a coruja. Como sempre chegou dizendo:

- Te contei? O tucano Tobias disse que não gosta de você, que você é uma atrevida. Por isso ele foge quando você está chegando, só para não falar com você.

A Coruja Pelucha ficou muito chateada, pois Tobias era um amigo de muitos anos, sendo assim, desabafou:

- Tobias está falando de mim sem motivo algum. Então, se ele não quer falar comigo, melhor assim. Não vou ficar atrás de quem não deseja a minha presença.

E assim, a Coruja Pelucha e o Tucano Tobias pararam de se falar, ficando cada um emburrado no seu canto.

Filomena Te Contei, não se dando por satisfeita, continuava com suas intrigas. Desta vez, resolveu causar inimizade entre a Onça Pinta Silva e o Lobo Joel. Ao avistar a onça, pousou em um galho perto dela e foi logo dizendo:

- Te contei? O Lobo Joel me disse que essas suas pintinhas andam muito fora de moda, que olhar para a senhora já anda lhe cansando as vistas.

D.Onça, muito feroz, rosnou:

-Grrrrr.....Ah, se eu pego aquele lobo!

Fifi fofoqueira, por sua vez, correu para o lobo e falou:

- Sr.Joel, eu te contei? Dona Onça Pinta Silva disse que vai te pegar. Não que eu queira me envolver com assuntos que não me dizem respeito, mas como sou sua amiga, me vi no dever de alertá-lo - e aumentava - ela disse que vai fazer picadinho de você.

Joel, um lobo sistemático como era, começou a evitar a D.Onça, passando a não freqüentar lugares por onde ela ia e trilhando caminhos por onde ela não costumava passar.

Continuando sua rede de intrigas, noutra ocasião, Filomena Te Contei encontrou o Galo Galante e foi logo dizendo:

- Te contei? A preguiça Soninho anda reclamando do seu canto. Ela gosta de dormir até tarde e disse que você fica cantando alto e desafinado, acordando-a muito cedo. Ela disse que, se pelo menos você soubesse cantar...

Dessa maneira, o galo também ficou com raiva da preguiça.

Na verdade, Fifi , a arara fofoqueira, gostava de dizer o que pensava das pessoas, mas colocando o nome de outras na história. Além de fofoqueira, ela se tornou covarde e mentirosa, defeitos que costumam estar juntos em pessoas que agem dessa maneira.

Filomena fazia intrigas entre animais da floresta e os animais da fazenda. Um dia ela chegou perto do boi Berro Forte, temido por muitos por ser bravo e ter pouca paciência para conversa e foi logo falando:

- Te contei, Berro Forte? A ovelha Alva disse que além de você ter chifre mal-cheiroso, seu berro é assustador. Que belo é o balido dela, delicado como ela própria. E disse mais, que ela sabe o que é ter educação, já você...

Berro Forte ficou muito bravo, deu coices no ar, bufou de raiva e esbravejou:

- Eu ainda pego aquela ovelha malcriada!

Mal sabia o boi Berro Forte que mal criada era Filomena. Não tinha sido educada para compreender que não se deve mentir, fofocar, aumentar e muito menos jogar uma pessoa contra a outra.

Fifi gostava tanto de fazer fofocas que mesmo quando alguém não estava falando mal da outra, ela dava um jeito de inventar um assunto e envolver a pessoa em alguma intriga. Para isso, às vezes ela elogiava a pessoa só para falar mal da outra. Um exemplo disso foi a conversa que ela teve com a cigarra.

- Bom dia, D. Cigarra Cantante, que bela voz tem a senhora! Isso que é voz e não aquela de taquara rachada do sapo Coachador.

Dona cigarra ficou calada, mas mesmo assim ela foi ter com o sapo e lhe falou num tom meio cínico e meio desaforado:

- Sr. sapo, te contei? Eu ouvi de longe uma conversa. Me parece que era a cigarra e outra pessoa que não conheço falando que seu cantar é horrível, que só ela sabe cantar.

Filomena só não contou para o sapo que essa pessoa era ela mesma, a única e exclusiva autora do comentário maldoso. Após o sapo demonstrar indignação, Fifi acrescentou:

- Não fique triste, ela deve estar com inveja de você, um cavaleiro tão distinto e talentoso.

Às vezes Fifi dizia:

-Olha, o Sabiá é meu amigo pessoal, mas a verdade precisa ser dita, as pernas dele são muito finas, e o pior, ainda são roxas.

Filomena Te Contei achava que ao dizer que a pessoa era sua amiga, ela poderia falar tranquilamente sobre os de defeitos que julgava ter aquela pessoa.

Filomena gostava não só de encontrar com aqueles animais cujo coração já estava machucado devido a suas fofocas, como também de demorar falando mal de quem era o causador da mágoa, contribuindo assim para alimentar e aumentar o ódio. A justificativa de Fifi para isso era:

- Não gosto de injustiças, ele jamais poderia ter falado isso de você, uma pessoa tão boa, educada... - Fifi então desfiava elogios falsos, e isso ela falava para todos.

Mas os animais compreenderam um a um que não valia a pena viverem tristes. Assim, resolveram queriam voltar a ser felizes, para tanto, era necessário pararem de ouvir fofocas. Suas cabeças andavam cheias com as intrigas que Fifi fazia, suas conversas eram muito desagradáveis e sempre que ela os visitava, deixava um rastro de tristeza e amargura.

Outra decisão que tomaram foi a de dialogar com quem supostamente os havia magoado. Ah, quando isso aconteceu! Todos descobriram o que já desconfiavam, Filomena Te Contei havia criado fofocas e quase feito toda a bicharada entrar em guerra.

Após muita conversa e pedidos de desculpas, os animais aprenderam uma lição: jamais poderiam acreditar em conversas alheias, pois quem fofoca, geralmente aumenta e inventa. Aprenderam também que não adianta ficar com raiva do outro, é necessário conversar para esclarecer e se chegar a um entendimento.

Os casos de briga no reino animal foram sendo resolvidos um a um. Só então, as partes prejudicadas resolveram reunir e discutirem sobre o que poderiam fazer para ensinar uma lição a Filomena, ajudando-a a vencer o defeito de seu caráter.

Após muita conversa, combinaram que todos deveriam deixar de ouvir as fofocas de Fifi. Como Filomena desconhecia esse acordo, ela continuou tendo o mesmo comportamento. Mas não demorou muito para que ela percebesse que algo mudara, pois sempre que chegava perto de um animal com o seu costumeiro “Te contei?”, ele respondia:

- Não. Mas também não quero que me conte nada, a não ser que seja uma coisa agradável e que não envolva o nome de mais ninguém além do nosso.

Filomena corria para falar com outro animal e tinha a mesma resposta, e assim sucessivamente. Cansada de sobrevoar a floresta e a fazenda, de falar com todos os bichos, Filomena pousou triste sobre um galho. Ela não tinha ninguém. Não tinha amigos verdadeiros e não sabia como fazer para conquistá-los, afinal, perdera o hábito de conversar, de dialogar, só sabia fofocar.

Assim Filomena passou uns bons dias, sem ter com quem falar, pousando em um galho e outro. Durante esses dias, ela pode refletir sobre o seu comportamento e percebeu que, se quisesse ter amigos de verdade, deveria mudar. Além disso, pode compreender que todos os animais, assim como ela, possuíam defeitos, mas que era possível amar os amigos como são. Que não se deve falar mal uns dos outros, mas ajudar a todos na medida do possível, para que amizade possa crescer, e junto com ela, cada um também possa crescer em caráter e em bondade.

Filomena Te contei precisava aprender a conversar coisas sadias e fazer o uso de palavras sábias e verdadeiras, palavras que têm o poder de transformar vidas. Mas, por enquanto, ela estava tentando. Passara todo o tempo fofocando, precisava aprender a ser diferente. Mas, para aprender, ela teria que tentar se reaproximar dos animais, pois somente eles poderiam ajudá-la a ser diferente.

Filomena estava envergonhada, e isto já era um bom começo. Sendo assim, aproximou bem devagarzinho da ovelha, que considerava mais dócil e deu o primeiro passo para uma nova etapa em sua vida, um novo começo; assim, pediu desculpas. Ela começou falando bem baixinho:

- Olha ovelhinha Alva, eu tenho sido muito fofoqueira. Fiz intrigas entre você e o Boi Berro Forte, por isso, venho lhe pedir desculpas. Sei que errei, mas quero continuar sendo sua amiga e agir de maneira diferente.

A ovelhinha Alva, bondosa como era, perdoou Filomena e a estimulou com palavras a levar esse mesmo pedido a todos que ela havia prejudicado. Assim ela fez. Não foi fácil, mas era necessário.

A partir daí Filomena Te Contei, conhecida como a arara fofoqueira, aprendeu a ser diferente: ela parou de contar fofocas e passou a contar coisas de sua vida, de passeios que fizera, de coisas que realizara e a falar sobre seus sonhos. Ao invés de usar palavras para deixar os animais tristes, ela passou a usá-las para confortar, animar e contar histórias engraçadas. A partir daí a paz voltou a reinar na floresta e no campo, e Filomena pode experimentar uma nova sensação: a de ter amigos verdadeiros. Dessa maneira, ela deixou de ser Fifi, a fofoqueira, passando a ser Fifi, a feliz.

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