Mauro Sérgio Santos (opinião)


 Neste número trazemos uma seleção de textos expressivos de Mauro Sérgio Santos.  Além da formação acadêmica em Filosofia pela PUC/MG, Mauro também é poeta (membro da Academia de Letras e Artes de Araguari, autor do livro "Camaleão: metapoesia") e tem artigos, publicados em vários periódicos como Leituras da História (Editora Escala/UOL), Mundo Jovem e Correio de Uberlândia. O professor Mauro, especialmente, faz parte da equipe de formadores do Cemepe e atua no Núcleo das Infâncias (Ninf). Ele tem contribuído em todos os números do nosso Boletim e, nessa edição ainda mais. São 08  artigos que levam sua assinatura e que temos a satisfação de publicar/republicar.
Boa leitura.

Quem educará os educadores?

postado em 1 de jul de 2016 06:39 por Andre Martins   [ 1 de jul de 2016 06:54 atualizado‎(s)‎ ]

por Mauro Sérgio Santos


 Ninguém começa a ser educador numa certa terça-feira às quatro horas da tarde. Ninguém nasce educador ou marcado para ser educador. A gente se faz educador, a gente se forma, como educador, permanentemente, na prática e na reflexão sobre a prática” (FREIRE, Paulo. A educação na cidade, 1991)


“Quem educará os educadores? ” Essa questão colocada pelo filósofo Karl Marx (1818-1883) em uma de suas teses sobre Feuerbach. Por sua radicalidade e por tratar de um problema educacional de primeira ordem, a interpelação do pensador alemão é recorrentemente evocada.

A indagação de Marx, entre outros filósofos, chama a atenção para a importância da formação contínua dos profissionais da educação. A ideia de que o próprio educador precisa -- também ele -- ser continuamente educado traz consigo a visão de mundo de quem não se satisfaz com a cenário atual, a visão de quem acredita na possibilidade de mudança e de quem não mede esforços para promover uma educação voltada para a transformação social. E, neste aspecto, uma vez mais, Uberlândia faz justiça à sua vocação para a grandeza e o pioneirismo.

Em 1992, a Secretaria Municipal de Educação oficializara o Centro Municipal de Estudos e Projetos Educacionais Julieta Diniz, situado, hoje, no Bairro Brasil. Desde então, o Cemepe, como é conhecido, coloca Uberlândia entre os raríssimos municípios brasileiros que possuem uma autarquia precipuamente destinada à formação docente.

O Centro dedica-se à formação contínua, em serviço e em rede para e com os/as profissionais da Educação da Rede Pública Municipal de Ensino de Uberlândia, além do desenvolvimento de programas e projetos de estudos, pesquisa e intervenção pedagógica no cotidiano das unidades escolares, nos espaços das salas de aula e demais ambientes educativos. Em sua atual configuração, como um instrumento a serviço dos propósitos da construção de uma Cidade Educadora e por meio de suas atividades, ele visa incentivar a liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber.

Nessa direção, entre 2013 e 2015, o centro propiciou e acolheu mais de 184 mil participações em atividades formativas. Seus profissionais realizaram quase 6 mil visitas às escolas e suas bibliotecas, 265 rodas de conversa, 383 mostras pedagógicas; além de colaborar significativamente no desenvolvimento de uma gestão informatizada dos dados educacionais, com a implantação do diário eletrônico on-line. Além disso, articuladas em rede, as próprias escolas, realizam atividades formativas com os profissionais da educação e toda a comunidade.

Posto isso, em consonância com a indagação de Marx postulada no início deste artigo, cabe retomar outra assertiva freireana: “ninguém educa ninguém. Ninguém se educa sozinho. Os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo” (FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido,1987). Pois, a educação ocorre em todas as instâncias e esferas da vida. Do nascimento à morte, essa aventura denominada existência humana se constitui em um ininterrupto processo educacional. As pessoas, a sociedade e as escolas, concomitante e dialeticamente, humanizam-se e educam-se.

Isolados, os indivíduos não modificam a sociedade, tampouco a educação; nem mesmo a escola. Mas, juntos, podemos lançar as pedras fundamentais de uma cidadania consciente, participativa e transformadora. A cidade educadora somos nós.

Mídia e Política: a vida imita o vídeo?

postado em 21 de jun de 2016 09:21 por Andre Martins   [ 21 de jun de 2016 09:22 atualizado‎(s)‎ ]

Há na grande mídia uma indústria de fabricação de notícias caracterizada, mormente, pela despolitização do conteúdo apresentado, pela superficialidade do que é noticiado, pela virtualização do cotidiano e pela bipolarização do debate político.

Por Mauro Sérgio Santos


O mundo se esgota quando passa a ser visto sob um única perspectiva (Hannah Arendt)

 

O sociólogo francês Guy Debord   descreve o tempo presente em termos de uma sociedade do espetáculo.  Para o pensador, a forma mais perversa da sociedade de consumo onde o ilusório e o aparente possuem status de sentido. O “parecer ser” se sobrepõe ao “ser”; a ficção é uma amalgama da realidade; o virtual confunde-se com o real. Para Debord, os meios de comunicação de massa são a manifestação superficial mais esmagadora da sociedade do espetáculo, que faz do indivíduo um ser infeliz, anônimo e solitário em meio a massa de consumidores (de bens, de notícias, de desejos, etc.).


Por certo, vivemos em uma sociedade marcada pela fluidez, pela inconstância e por transformações vertiginosas na qual, por assim dizer, “não há nada mais velho que a notícia do jornal de ontem”. Nesse sentido, especialmente no âmbito dos acontecimentos políticos contemporâneos do cenário nacional, qualquer previsão acerca do futuro parece não passar de mera conjectura amiúde fadada ao fracasso.


Nesse escopo, aparentemente inconteste é o protagonismo exercido pelos meios de comunicação de massa. A mídia, na medida em que filtra e manipula conteúdos, apresenta-se como uma das pontes privilegiadas entre o sujeito e o mundo político. O linguista e filósofo americano Noam Chomsky afirma que “a propaganda representa para a democracia aquilo que o cassetete (ou repressão da polícia política) significa para o estado totalitário”. Há na grande mídia uma indústria de fabricação de notícias caracterizada, mormente, pela despolitização do conteúdo apresentado, pela superficialidade do que é noticiado, pela virtualização do cotidiano e pela bipolarização do debate político.

É imprescindível notar nos canais abertos de maior audiência da TV um processo sutil de ficcionalização das notícias políticas. O que ocorre na mesma medida em que se atribui realidade ao mundo virtual e à ficção. Os noticiários apresentam uma estrutura melodramática (com suspenses, capítulos, desfechos apoteóticos, etc.), ao passo que as telenovelas criam uma pretensa realidade. Nas mídias de massa, consumimos diariamente a glamourização do mal e a ridicularização das questões políticas. Com status de verdade irrefutável, a população absorve um discurso de demonização ou despolitização da própria política pelo uso de clichês, de discursos propositadamente superficiais, incompletos, distorcidos.


Sob a égide da pretensa imparcialidade o que se percebe consuetudinariamente na grande mídia é uma retórica escatológica de enunciação da descrença em virtude de uma catástrofe iminente. Tais discursos não são involuntários ou despropositados. Eles atingem um percentual significativo da população, formam opiniões, constroem imaginários. Produzem subjetividades conservadoras que tornam aparentemente impossível a mudança, a transformação e o novo. Viralizam o tacanho (o fascismo e a intolerância) e ofuscam o relevante. Despotencializam e desarticulam os sujeitos. E, por fim, bipolarizam o debate político.

Contudo, essa bipolarização do cenário político atual não revela a complexidade do momento em que vivemos: crise e concomitante aprimoramento das instituições democráticas, mudança de cultura política, educação para a liberdade, emergência de novos imaginários. Nos polos dessa pseudo-dualidade há muitos “poros” e arestas que não são apresentados à população pelos grandes veículos de comunicação. O maniqueísmo político (divisão entre bem e mal) não é, em nenhuma hipótese, profícuo ou salutar à vida em sociedade. Ele divide as pessoas, desvia a atenção para o irrelevante, inócuo e impede que os indivíduos percebam o essencial ou mesmo o óbvio. Assim, contra o pensamento único, a pluralidade. Contra a ignorância, o esclarecimento. Contra o autoritarismo, a informação e o debate. Contra o ódio gratuito, a alteridade. Contra a intolerância, a revolução do diálogo.

Economia nas eleições

postado em 17 de jun de 2016 09:22 por Andre Martins   [ 17 de jun de 2016 09:24 atualizado‎(s)‎ ]

Por Mauro Sérgio Santos

Conforme Max Weber, existem três espécies de poder: o poder político, econômico e o ideológico. No cenário político brasileiro, nota-se, lamentavelmente, que, com o auxílio da ideologia e de outros recursos, o poder econômico macula e se sobrepõe ao poder político.
Nessa direção, a questão que se coloca ao cenário atual não é outra senão a seguinte: nas eleições municipais de 2016, qualquer cidadão bem-intencionado pode pleitear uma cadeira nos Legislativos dos municípios brasileiros? Sim, desde que atenda às exigências da legislação eleitoral, mas, sobretudo, se dispor de recursos financeiros para investir pesadamente em sua campanha.
A despeito da crise e das pequenas alterações realizadas na legislação em 2015, essa é a grande cláusula de barreira do sistema político brasileiro: a barreira econômica. Isso impede que as classes populares sejam representadas por um de seus pares. Sem dinheiro, não se vence eleição no Brasil. No atual quadro político, temos, de um lado, políticos profissionais e, de outros, empresários “investidores de mandatos”.
E tal investimento é bastante rentável. Grupos políticos começam a se organizar. Alianças são realizadas. Acordos são selados. Conchavos configuram-se. Promessas são feitas. Novos velhos nomes são ventilados. O período eleitoral não começou oficialmente, mas todos começam a politicar.
Uma renovação se faz premente nas prefeituras e câmaras municipais; clamam, unânimes, os cidadãos dos quatro cantos do País. Mas que renovação seria essa? Secretários das atuais ou administrações anteriores? Filho de algum político do passado que seguirá os passos do pai, do tio, do avô? Ou apadrinhado de qualquer afortunado, industrial, empresário ou fazendeiro? Sem recursos para campanha, um candidato, por mais bem-intencionado que seja, dificilmente, elege-se.
Não sendo público, tampouco transparente, o financiamento de campanha, cada candidato fica à mercê de investimentos do empresariado, da “filantropia” de terceiros ou de seus próprios recursos. Esse fator inviabiliza a presença de um genuíno representante das classes populares nos poderes legislativo e/ou executivo. No pleito de 2014, cada deputado federal eleito gastou mais de R$ 1 milhão em média.
Muitos gastaram mais do que isso e não se elegeram. Poucos mandatos foram conquistados sem enorme despesa. Tal situação se repete nos municípios. É ínfima a chance de ser eleito qualquer candidato a vereador da cidade de São Paulo, por exemplo, que não gaste cerca de R$ 800 mil. Quem tem essa quantia para ser gasta nos próximos meses sem garantias de ser ressarcido? Com isso, de saída, muitos concorrentes, mesmo aqueles portadores das mais nobres intenções, não possuem a menor chance de serem eleitos.
Incomuníssimos são os casos de candidatos eleitos por carisma, reconhecimento, popularidade ou por representarem um projeto para as classes populares. Representantes de fato do povo raramente exercem mandatos. No Brasil, por conta da ineficiência da legislação eleitoral, o poder político está submetido ao capital da classe dominante. E isso faz com que os mais pobres, mesmo constituindo a maioria, convenientemente permaneçam à margem do poder.

A banalidade do mal

postado em 17 de jun de 2016 07:29 por Andre Martins   [ 17 de jun de 2016 09:25 atualizado‎(s)‎ ]

Por Mauro Sérgio Santos


Há tempos nem os santos tem ao certo a medida da maldade. (Renato Russo)


Hannah Arendt, pensadora judia nascida na Alemanha em 1906, foi aluna dos filósofos Heidegger, Jaspers e Husserl. Fugindo do nazismo, exilou-se nos EUA, onde permanece até o fim de sua vida, em 1975.

Na década de 1960, Arendt se oferece para cobrir o julgamento de um burocrata nazista chamado Eichmann, um dos responsáveis pela chamada solução final: a ideia de extermínio total dos judeus.

Esperava-se de Arendt, na condição de judia, uma reportagem emocional que desvelasse o monstro nazista. A autora, entretanto, no relato do julgamento surpreende a todos, demonstrando que Eichmann era, tão somente, um homem superficial: burocrata, pai de família que cumpria ordens sem reflexão e questionamento e que tal superficialidade o levaria a fazer parte de uma engrenagem produtora da barbaridade.

A filósofa defende que uma sociedade superficial, facilmente, produz o mal que se torna banal, corriqueiro, cotidiano, sem relevância. Um determinado sistema social imposto, como o regime nazista, foi capaz de gerar um comportamento mal em milhares de pessoas. O sistema leva pessoas comuns a praticarem a barbárie.

De Arendt até nossos dias, passamos da banalização do mal à sua glamourização. Nas produções cinematográficas e nas telenovelas, por exemplo, há uma inversão de valores das figuras em questão assimiladas pelos telespectadores, em face da superficialidade social. Frequentemente, o mocinho é apresentado como alguém insosso, inglório, sofredor. Ao passo que o vilão passa a ser o protagonista, o centro das atenções, bem-sucedido, bem‑humorado, etc. O herói, para ser popular, precisa ter, nesses enredos, certa dose de ironia e malícia sob a pena de ser ridicularizado e/ou negligenciado.

Mais grave ainda são os noticiários pseudo-investigativos que, como abutres, alimentam-se da carnificina alheia, da exposição da violência, da barbárie e do ridículo humano. Na busca desenfreada pela audiência de telespectadores, atuam como formadores de opinião na reprodução de discursos superficiais e, portanto, de fácil assimilação. "Bandido bom é bandido morto". "Os Direitos Humanos só protegem bandidos". "As leis brasileiras são fracas." "Chegamos ao fim do mundo". "A pena de morte é a única alternativa"...

Discursos ultraconservadores em relação aos direitos humanos, "escatologias de botequim" marcadas por um pessimismo gratuito. Exposição exacerbada da violência como instrumento de catarse e entretenimento (sim, entretenimento), propagação da intolerância em relação ao diferente. Fortalecimento do elitismo, do racismo, da homofobia, da discriminação.

O simplismo de tais discursos absorve as massas justamente porque é superficial e sem fundamentação. A prática do bem exige reflexão. O mal é fruto do tacanho e medíocre, da irreflexão.


Meus heróis morreram de overdose. Meus inimigos estão no poder.(Cazuza)

A revolução do diálogo

postado em 17 de jun de 2016 07:11 por Andre Martins   [ 17 de jun de 2016 09:25 atualizado‎(s)‎ ]

Por Mauro Sérgio Santos


Esse é tempo de partido, tempo de homens partidos. (Drummond)


Marcia Tiburi (Filosofa e escritora; fundadora do movimento conhecido como Partida; ativista política em favor da democracia, da tolerância e da diversidade; colunista da Revista “Cult”; autora de vários livros, entre os quais, o mais recente é “Como conversar com um fascista: reflexões sobre o cotidiano autoritário brasileiro” -2015) demonstra sua preocupação com o fascismo que vem afetando a política brasileira nos últimos cinco anos. Fascismo, propõe a pensadora, é a prescrição ou eliminação simbólica e/ou física do outro, do inimigo, do diferente.

Em consonância com o pensamento de Hannah Arendt, no livro prefaciado pelo deputado Jean Wyllys, o fascista é compreendido como aquele que banaliza o mal. É o famigerado burro: aquele que não acessa o campo do outro porque lhe falta conhecimento e imaginação para tal. A burrice (que leva à banalidade do mal) é o cancelamento do processo de conhecimento e de imaginação. Nesse sentido, em nossos dias, “o fascismo é a máscara mortuária do conhecimento”; a ausência de reflexão.

Em tempos sombrios como os atuais, a verdadeira ferramenta revolucionária não é outra senão o diálogo. Afigura-se necessário pensar com as pessoas sobre questões da vida e da cultura política experimentada diariamente, mas de um modo aberto, sensível, arejado, propositivo. É preciso, hoje, afirma a pensadora, “fazer filosofia com as pessoas”. Insistir em uma “filosofia em comum” que seja mais do que o simples consenso, mas a coragem do diálogo com quem pensa diferente, mas o diálogo é fruto de um grande esforço. “Um esforço que, de tão complexo, equivale ao método. Que, de tão difícil, equivale à resistência. Que, de tão potente, equivale à transformação social em seu nível mais estruturador”.

Se desejamos uma sociedade democrática não podemos abrir mão da reflexão e de uma formação para o diálogo, para o debate livre de ideias, para a superação do preconceito, do machismo, da homofobia, do racismo, das violências físicas e simbólicas contra o que convencionou-se chamar de minorias. Não nos iludamos, a democracia está, sim, ameaçada no cotidiano da vida das pessoas, na esfera educacional, nas relações econômicas, sociais, culturais e políticas. A corrupção e promiscuidade políticas, o surto conservador que se alastra vorazmente por todas as esferas sociais. O falso apartidarismo, o neofundamentalismo, a ausência de reflexão, as pedaladas políticas, os subterfúgios antidemocráticos, as agressões aos direitos civis individuais.

Nesse sentido, “não podemos fingir que nada está acontecendo enquanto muitos descobrem essa verdade na própria pele”. Contra a estupidez, a reflexão. Contra o autoritarismo, o debate. Contra o ódio gratuito, a alteridade. Contra a intolerância, o diálogo.

Eu sou do tamanho do que vejo

postado em 17 de jun de 2016 06:38 por Andre Martins   [ 17 de jun de 2016 09:26 atualizado‎(s)‎ ]

Por Mauro Sérgio Santos


Hoje mais do que nunca a cidade, grande ou pequena, dispõe de inúmeras possibilidades educadoras. De uma forma ou de outra contém em si mesma elementos importantes para uma formação integral” 

(Carta das Cidades Educadoras)


O escritor uruguaio Eduardo Galeano no “Livro dos Abraços” escreveu:

Diego não conhecia o mar. O pai levou-o para que descobrisse o mar. Viajaram para O sul. Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando. Quando o menino e o pai alcançaram, enfim, aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava em frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto o seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza. E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai: me ajuda a olhar […]

As palavras de Galeano nos fazem pensar que frequentemente a tagarelice cotidiana nos impede de ver o encanto da realidade como ela é e, porquanto, precisamos da ajuda daqueles que nos cercam e de recursos diferentes aos que estamos acostumados. Nessa direção, com a devida vênia, convido o ilustre leitor, cidadão uberlandense, a olhar para o município de Uberlândia com um pouco mais de cuidado para que, desse modo, consiga perceber que a cidade se desenvolve sob uma perspectiva diferenciada, qualificada, inclusiva, participativa e democrática.

O caminho, definitivamente, não é novo. O que há de novo é um jeito novo de caminhar. Uberlândia agora é para todos. Nesta sorte, o que se percebe é que nos últimos tempos a maior cidade do interior de Minas não tem medido esforços para ampliar direitos sociais e possibilitar que diferentes espaços urbanos se convertam em ambientes educativos.

Urbanização com acessibilidade, moradias dignas para a população mais carente, vale-alimentação para servidores públicos, poemas plotadas nas praças, ciclismo gratuito, caminhadas e academias ao ar livre, atividades esportivas nos parques e avenidas, grandiosos espetáculos teatrais, encontro de violeiros, congado, a melhor educação de Minas, reconhecimento das diferenças...

Há muito o que ser feito, mas também não falta o que se celebrar. Nesse sentido, talvez seja preciso reinventar a percepção que temos de Uberlândia: superar o ceticismo em nome da possibilidade de ver além do óbvio. Trocar o pessimismo pela esperança. Nas palavras de Exupéry, o essencial é invisível aos olhos. Só se vê bem com o coração.  Diz Fernando Pessoa, “Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo... Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer.  Porque eu sou do tamanho do que vejo...”. O uberlandense é grande. Uberlândia é grandiosa e para todos.

Pelos direito de ensinar e de aprender

postado em 17 de jun de 2016 05:34 por Andre Martins   [ 17 de jun de 2016 09:26 atualizado‎(s)‎ ]

Por Mauro Sérgio Santos


A educação é o ponto em que decidimos se amamos o mundo o bastante para assumirmos a responsabilidade por ele (ARENDT, 2001)


Em 2013, a atual gestão municipal adotou como slogan e ideal a ser perseguido a máxima: “Por uma Cidade Educadora”. A Carta das Cidades Educadoras redigida em 1990, em Barcelona postula que a cidade é educadora “quando reconhece, exerce e desenvolve, para além das suas funções tradicionais (económica, social, política e de prestação de serviços), uma função educadora, isto é, quando assume uma intencionalidade e responsabilidade, cujo objetivo é a formação, promoção e desenvolvimento de todos os seus habitantes, a começar pelas crianças e pelos jovens”. Nesta direção, Uberlândia viveu nos últimos anos uma verdadeira revolução, ainda que silenciosa, em todos os setores da cidade.

Em 2015, um estudo realizado pela União Brasileira de Divulgação (UBD), revelou que o município de Uberlândia tem a melhor educação municipal de Minas Gerais e está entre as 40 melhores de um universo de mais de 5,5 mil cidades de todo o país. O que se deve, especialmente, à construção do Plano Municipal de Educação e ao estabelecimento da Rede Pública Municipal pelo Direito de Ensina e de Aprender pela lei 11.444/2013: construção de escolas, consulta à comunidade para a escolha de gestores nas escolas, constituição dos Grêmios Estudantis Livres, valorização profissional, uniformes e material escolar de qualidade, humanização das relações, atenção às diferenças, respeito aos direitos humanos, preocupação com uma educação inclusiva promotora da cidadania e emancipação; democratização da aprendizagem e a qualidade da educação, gestão democrática; transparência e controle social na gestão financeira da educação.

No entanto, é óbvio que uma cidade educadora não se constrói apenas a partir da escola. A transformação social passa pela escola, mas não é exclusividade dela. Todas as experiências da existência podem ser educativas. A educação ocorre nos diversos espaços do escopo social e, outrossim, na esfera privada. A família é educadora, assim como a comunidade, o poder público, os movimentos sociais, as associações de classe, o trânsito, a legislação, a religião e, evidentemente, também a escola. Nas palavras de Paulo Freire (1996) “a escola sozinha não muda a sociedade. Mas a sociedade, não muda sem a escola”.

Compreendemos, pois, que

 [...] a escola não pode tudo, mas pode mais. Pode acolher as diferenças. É possível fazer uma pedagogia que não tenha medo da estranheza, do diferente, do outro. A aprendizagem é destoante e heterogênea. Aprendemos coisas diferentes daquelas que nos ensinam, em tempos distintos, mas a aprendizagem ocorre, sempre. Precisamos de uma pedagogia que seja uma nova forma de se relacionar com o conhecimento, com os alunos, com seus pais, com a comunidade, com os fracassos e com o fim deles (ABRAMOWICZ, 1997)

Daí a importância de nos somarmos todos em torno da continuidade da construção de uma cidade educadora, haja vista que, mais do que nunca nossa cidade dispõe de inúmeras possibilidades educativas que nos leva a conclusão de que a cidade educadora somos nós.



A cidade educadora somos nós

postado em 16 de jun de 2016 13:18 por Andre Martins   [ 17 de jun de 2016 09:42 atualizado‎(s)‎ ]

Por Mauro Sérgio Santos


Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo

Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer

Porque eu sou do tamanho do que vejo... (Fernando Pessoa)


Uberlândia.  Palavra constituída pela junção da expressão originada do latim ubere (fértil, fecundo, farto, abundante) com o vocábulo de origem inglesa land, aportuguesado para -lândia, que significa, terra, território, lugar, local. Assim, etimologicamente, Uberlândia, significa algo como “terra fértil”.

Desde sempre, o município mais populoso do interior de Minas Gerais foi portador de uma vocação para a grandeza. Não sem motivos, o uberlandense é um cosmopolita, orgulhoso de sua altivez.

Essa Constantinopla do Cerrado tem o maior jornal diário impresso do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba. Tem uma economia aquecida e um polo industrial que gera milhares de empregos alocando, entre outras, a maior cervejaria da América Latina.

Possui uma das melhores universidades federais do país e outros excelentes centros universitários privados. Em 2015, um estudo realizado pela União Brasileira de Divulgação (UBD), revelou que o município de Uberlândia tem a melhor educação municipal de Minas Gerais e está entre as 40 melhores de um universo de mais de 5.500 cidades de todo o país. O que se deve, especialmente, ao estabelecimento da Rede Pública Municipal pelo Direito de Ensina e de Aprender: consulta à comunidade para a escolha de gestores nas escolas, constituição dos Grêmios Estudantis Livres, valorização profissional, humanização das relações.

Uberlândia tem um prefeito que é professor, negro, oriundo das camadas populares e “ficha limpa” (o que não é pouca coisa no cenário atual). Tem academias ao ar livre, um complexo de esporte e lazer gratuito, popular e democrático que atende pelo carinhoso nome de Parque do Sabiá, o aconchegante Parque Siquierolli, na   Zona Norte da cidade, o histórico Mercado Municipal, hoje, totalmente reformado hospedando importantes trabalhos e projetos culturais.

Celeiro de talentos paraolímpicos, também investe em projetos alternativos de mobilidade urbana, como é o caso do Udi Bike, uma parceria entre a prefeitura e empresas do município.

Terra Natal de Grande Otelo, essa moderna bizâncio possui um glamoroso teatro, agora, receptivo, intenso e aberto à população. Acolhe o faustuoso Festival Nacional de Viola de Cruzeiro dos Peixotos. Sediou três Semanas Internacionais de Comunicação e, no último ano, o Elicer, o maior evento literário do interior do Estado. Mantém vivaz a tradição do congado, Patrimônio Imaterial Municipal, festa uberlandense, considerada a maior do Estado de Minas Gerais e uma das maiores do Brasil.

Em 2014, recebeu o “Prêmio Brasil Sorridente” por ter o segundo melhor atendimento odontológico de Minas. Recentemente, mais de 10 mil famílias tiveram realizado o sonho da casa própria. Escolas foram edificadas em lugares com maior necessidade. Unidades Básicas de Saúde foram construídas. 

A cidade cresce em uma perspectiva popular, inclusiva, humanizadora e de democratização dos espaços e das relações. É possível ver isso! Mas, para tanto, é preciso superar a visão superficial que nos fazem ter da realidade que nos cerca. E isso passa por uma reeducação do olhar. Contra o pessimismo, a sensibilidade. Contra o ceticismo, a informação.

Por essa e outras inúmeras razões, Uberlândia pode (e deve) orgulhar-se de sua história, das conquistas atuais e de seu enorme potencial.


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