A revolução do diálogo

postado em 17 de jun de 2016 07:11 por Andre Martins   [ 17 de jun de 2016 09:25 atualizado‎(s)‎ ]

Por Mauro Sérgio Santos


Esse é tempo de partido, tempo de homens partidos. (Drummond)


Marcia Tiburi (Filosofa e escritora; fundadora do movimento conhecido como Partida; ativista política em favor da democracia, da tolerância e da diversidade; colunista da Revista “Cult”; autora de vários livros, entre os quais, o mais recente é “Como conversar com um fascista: reflexões sobre o cotidiano autoritário brasileiro” -2015) demonstra sua preocupação com o fascismo que vem afetando a política brasileira nos últimos cinco anos. Fascismo, propõe a pensadora, é a prescrição ou eliminação simbólica e/ou física do outro, do inimigo, do diferente.

Em consonância com o pensamento de Hannah Arendt, no livro prefaciado pelo deputado Jean Wyllys, o fascista é compreendido como aquele que banaliza o mal. É o famigerado burro: aquele que não acessa o campo do outro porque lhe falta conhecimento e imaginação para tal. A burrice (que leva à banalidade do mal) é o cancelamento do processo de conhecimento e de imaginação. Nesse sentido, em nossos dias, “o fascismo é a máscara mortuária do conhecimento”; a ausência de reflexão.

Em tempos sombrios como os atuais, a verdadeira ferramenta revolucionária não é outra senão o diálogo. Afigura-se necessário pensar com as pessoas sobre questões da vida e da cultura política experimentada diariamente, mas de um modo aberto, sensível, arejado, propositivo. É preciso, hoje, afirma a pensadora, “fazer filosofia com as pessoas”. Insistir em uma “filosofia em comum” que seja mais do que o simples consenso, mas a coragem do diálogo com quem pensa diferente, mas o diálogo é fruto de um grande esforço. “Um esforço que, de tão complexo, equivale ao método. Que, de tão difícil, equivale à resistência. Que, de tão potente, equivale à transformação social em seu nível mais estruturador”.

Se desejamos uma sociedade democrática não podemos abrir mão da reflexão e de uma formação para o diálogo, para o debate livre de ideias, para a superação do preconceito, do machismo, da homofobia, do racismo, das violências físicas e simbólicas contra o que convencionou-se chamar de minorias. Não nos iludamos, a democracia está, sim, ameaçada no cotidiano da vida das pessoas, na esfera educacional, nas relações econômicas, sociais, culturais e políticas. A corrupção e promiscuidade políticas, o surto conservador que se alastra vorazmente por todas as esferas sociais. O falso apartidarismo, o neofundamentalismo, a ausência de reflexão, as pedaladas políticas, os subterfúgios antidemocráticos, as agressões aos direitos civis individuais.

Nesse sentido, “não podemos fingir que nada está acontecendo enquanto muitos descobrem essa verdade na própria pele”. Contra a estupidez, a reflexão. Contra o autoritarismo, o debate. Contra o ódio gratuito, a alteridade. Contra a intolerância, o diálogo.