Mídia e Política: a vida imita o vídeo?

postado em 21 de jun de 2016 09:21 por Andre Martins   [ 21 de jun de 2016 09:22 atualizado‎(s)‎ ]
Há na grande mídia uma indústria de fabricação de notícias caracterizada, mormente, pela despolitização do conteúdo apresentado, pela superficialidade do que é noticiado, pela virtualização do cotidiano e pela bipolarização do debate político.

Por Mauro Sérgio Santos


O mundo se esgota quando passa a ser visto sob um única perspectiva (Hannah Arendt)

 

O sociólogo francês Guy Debord   descreve o tempo presente em termos de uma sociedade do espetáculo.  Para o pensador, a forma mais perversa da sociedade de consumo onde o ilusório e o aparente possuem status de sentido. O “parecer ser” se sobrepõe ao “ser”; a ficção é uma amalgama da realidade; o virtual confunde-se com o real. Para Debord, os meios de comunicação de massa são a manifestação superficial mais esmagadora da sociedade do espetáculo, que faz do indivíduo um ser infeliz, anônimo e solitário em meio a massa de consumidores (de bens, de notícias, de desejos, etc.).


Por certo, vivemos em uma sociedade marcada pela fluidez, pela inconstância e por transformações vertiginosas na qual, por assim dizer, “não há nada mais velho que a notícia do jornal de ontem”. Nesse sentido, especialmente no âmbito dos acontecimentos políticos contemporâneos do cenário nacional, qualquer previsão acerca do futuro parece não passar de mera conjectura amiúde fadada ao fracasso.


Nesse escopo, aparentemente inconteste é o protagonismo exercido pelos meios de comunicação de massa. A mídia, na medida em que filtra e manipula conteúdos, apresenta-se como uma das pontes privilegiadas entre o sujeito e o mundo político. O linguista e filósofo americano Noam Chomsky afirma que “a propaganda representa para a democracia aquilo que o cassetete (ou repressão da polícia política) significa para o estado totalitário”. Há na grande mídia uma indústria de fabricação de notícias caracterizada, mormente, pela despolitização do conteúdo apresentado, pela superficialidade do que é noticiado, pela virtualização do cotidiano e pela bipolarização do debate político.

É imprescindível notar nos canais abertos de maior audiência da TV um processo sutil de ficcionalização das notícias políticas. O que ocorre na mesma medida em que se atribui realidade ao mundo virtual e à ficção. Os noticiários apresentam uma estrutura melodramática (com suspenses, capítulos, desfechos apoteóticos, etc.), ao passo que as telenovelas criam uma pretensa realidade. Nas mídias de massa, consumimos diariamente a glamourização do mal e a ridicularização das questões políticas. Com status de verdade irrefutável, a população absorve um discurso de demonização ou despolitização da própria política pelo uso de clichês, de discursos propositadamente superficiais, incompletos, distorcidos.


Sob a égide da pretensa imparcialidade o que se percebe consuetudinariamente na grande mídia é uma retórica escatológica de enunciação da descrença em virtude de uma catástrofe iminente. Tais discursos não são involuntários ou despropositados. Eles atingem um percentual significativo da população, formam opiniões, constroem imaginários. Produzem subjetividades conservadoras que tornam aparentemente impossível a mudança, a transformação e o novo. Viralizam o tacanho (o fascismo e a intolerância) e ofuscam o relevante. Despotencializam e desarticulam os sujeitos. E, por fim, bipolarizam o debate político.

Contudo, essa bipolarização do cenário político atual não revela a complexidade do momento em que vivemos: crise e concomitante aprimoramento das instituições democráticas, mudança de cultura política, educação para a liberdade, emergência de novos imaginários. Nos polos dessa pseudo-dualidade há muitos “poros” e arestas que não são apresentados à população pelos grandes veículos de comunicação. O maniqueísmo político (divisão entre bem e mal) não é, em nenhuma hipótese, profícuo ou salutar à vida em sociedade. Ele divide as pessoas, desvia a atenção para o irrelevante, inócuo e impede que os indivíduos percebam o essencial ou mesmo o óbvio. Assim, contra o pensamento único, a pluralidade. Contra a ignorância, o esclarecimento. Contra o autoritarismo, a informação e o debate. Contra o ódio gratuito, a alteridade. Contra a intolerância, a revolução do diálogo.